terça-feira, 3 de agosto de 2010

O meu amigo Pakey

Quem escreveu "Jaz morto e arrefece" era muito maior do que nós, é figura de culto, de conferências, de palestras, de teses de mestrado e de doutoramento e outras 'academices'. Que me perdoe o atrevimento quem quiser reclamar, mas vou surripiar-lhe a expressão e a inspiração para referir-me ao meu amigo Pakey, ontem falecido, antes que ele arrefeça e eu perca o fio à meada compridíssima das boas recordações que alistarei enquanto a memória me permitir.
De uma maneira geral todos temos dificuldade em falar da morte, quer porque se trata de uma situação na maior parte dos casos dolorosa, quer porque há milénios coloca-nos uma série de interrogações. Quando a morte ocorre nas nossas famílias ou no nosso círculo de amigos, e temos de frequentá-la contra todas as resistências, vivemo-la com a maior das frugalidades e tratamos de despachá-la rapidamente. Mas, por enquanto, ainda me lembro de como o Pakey ficou desfigurado pelo cancro e sugeria, nos seus últimos dias de vida, a imagem que temos dos judeus encanzelados dos campos de concentração ou, numa versão mais ternurenta, os simpáticos extra-terrestres de olhos esbugalhados dos "Encontros Imediatos do Terceiro Grau", de Steven Spielberg. Apesar de fisicamente depauperado, sulcou até ao fim a sua finíssima onda de humor, que se erguia quando menos se esperava. Teve sempre na ponta da língua a palavra adequada a cada situação, como se costuma dizer, e por isso as suas tiradas de humor eram disparadas com a velocidade de uma bala, quase sempre inofensivas porque não se lhe conheciam más intenções. Poucos minutos antes de nos deixar e na presença de um relativamente numeroso grupo de amigos, quando a filha, sentada num banquinho ao lado da cama onde jazia, virou-lhe as costas para sussurrar a uma amiga que fosse à cozinha preparar um café para o médico que denodada e amavelmente acompanhou-nos noite e madrugada dentro, disparou o seguinte e muito irónico chiste: "Eh lá, meninas, o que vem a ser isto?! Não se dizem segredos diante dos doentes!" Teria decerto pensado no facto de, contra todas as evidências, ter-lhe sido sempre omitido o nome da doença e a gravidade do que padecia e de, nas últimas horas, as pessoas em seu redor, uma vez ou outra, após observarem se ele estava ou não atento ao que se passava, dado ao seu estado de prostração e de aparente semi-vigilância, fazerem sinais e murmurarem coisas em direcção à porta do quarto do qual, pé-ante-pé, se aproximavam os amigos que montaram guarda na última noite e se queriam inteirar de como evoluíam as coisas. Porque naquele momento estivesse muita gente no quarto, foi um instante de hilaridade geral e o ambiente ficou aliviado.
Não conheci ninguém que zombasse tanto da morte como o Pakey. Numa ilha em que quase todos se conhecem, os enterros são muito concorridos e inúmeras vezes encontrei-o nas marchas vagarosas a caminho do cemitério, sendo ele a minha companhia predilecta, pois esconjurava melhor do que ninguém os fantasmas que povoam aqueles ambientes e cumpria com maestria uma curiosa tradição dos ilhéus: "Trá terra de môrte", uma expressão crioula que, traduzida à letra, quer dizer "tirar a terra da morte"... é que depois das pazadas com que se entopem as sepulturas, o pessoal iniciado dirige-se aos botequins de sua afeição para beber uns cálices de grogue - aguardente de cana de açúcar -, a fim de lavar as goelas ressequidas pela terra dos covados. Há cerca de um ano, combinámos que eu passaria pelo seu escritório para juntos acompanharmos, no meu carro, o funeral do dr. Adriano, uma pessoa ilustre cá da ilha. Como estava cheio de trabalho nesse dia, pediu-me que fosse buscá-lo depois da missa de corpo presente, mas advertiu-me que não chegasse atrasado. Não era que o finado desmerecesse, mas o padre levou mais de hora e meia a pôr sobrescritos nas cartas de recomendação, de maneira que quando , finalmente, passei à porta do Pakey, estava ele farto de esperar e disse-me afogueado: " Caramba! Pensei que o dr. Adriano tivesse ressuscitado e já não houvesse funeral!"

De modo que já se previa que o velório do Pakey, além de muito participado, desse lugar a episódios lúdicos. E foi tanto assim que alguém contou que o Pomba, músico e rapaz muito rodado nessas andanças, fora chamado para tocar na banda que ia acompanhar o enterro do pai de um grande amigo. Conhecedor das ruas por onde seguiria o cortejo, o Pomba, que intercala grandes estiagens com períodos de rega incontinente, esgueirou-se para o bar de Nha Dadó, na Rua do Côco, onde aguardaria que o féretro passasse, enquanto beberia dois ou três cálices, após o que voltaria a juntar-se à banda. A Rua do Côco é contígua ao largo da Igreja Matriz, onde se rezam quase todas as missas do género, e é por ela que passa a maioria dos funerais. O que o Pomba não podia adivinhar é que a família do extinto decidisse à ultima hora que, em vez de seguir pela Rua do Côco, o séquito percorresse a Rua da Luz, uma via paralela, onde se situava o escritório do falecido, para mais um gesto de homenagem. Entretido e embalado à mesa do botequim, entre uns tragos de grogue e o dedilhar do violão, deixou-se estar até ver, subitamente, entrar bar adentro os companheiros da banda, que traziam os sapatos cheios de terra. Eis, então, que o Pomba despertou e perguntou: "J'ás rancá?", que em português significa "Já largaram, já partiram? - para o cemitério, deve presumir-se -, ao que os outros responderam: "Já nô vrá! Nô bem trá terra! (Estamos de volta, vimos 'tirar a terra'!)".

JL

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Lobisomem para os lados do Alto da Caganita

Não resisto a publicar este excerto. Que me perdoe o autor. Dir-lhe-ei em tempo. O livro vai sair em breve.Estas lendas ~fazem parte parte do nosso imaginário..

“Estes calores são de mais, o tempo vai mudar, ora se vai… sinto-me assovacada por uma forte dor nas cadeiras, as minhas cruzes latejam que nem pandeiros”, disse Maria Pingalha. Maquinalmente alisou a cabeça e, de seguida, o seu branco e ralo cabelo enrolou, um carrapicho embaraçou e, lá no alto, o prendeu com pretos ganchos que da boca retirou sem se deter. Sim! Ela sem se deter assim continuou. “Sabem a última novidade? Ontem, noite de lua cheia e a altas horas, foi olhado um lobisomem horrendo! Um lobo preto e feroz que vagueava p’lo Alto da Caganita. Dizem que era a alma penada do João Malcriado da Cova da Onça que andava a espiar a ruindade!”. “Oh que horror! Santo Cristo nos valha!, e se se arrima ao Largo de São Pedro, quem o apazigua?”, carpiu Pisca Pêdioca. Logo disponível Xaroca Azul encomendou, “Só o nosso vizinho, o corpanço Chapa d’Aço que lhe sobra tento para o esganar! A avantesma com corpanzil de lobo, tem que padecer de uma sangria de jorro para que lhe seja quebrado o feitiço”. Maria Pingalha, aparvoada, esbugalhou um sim, amedrontada.
“Ah!, que as bentas tábuas do sacrário nos acudam!”, persignando-se rezou ais a beata do Pardal Preto.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hugo Chaves e a praia de faro


Bom. Dou de barato que é necessário disciplinar o trânsito, disciplinar os funcionários da câmara, disciplinar o estacionamento na 5 de Outubro, disciplinar o estacionamento no Largo do Mercado, disciplinar a hora dos bares da baixa, disciplinar o parque campismo da Praia de Faro, disciplinar as esplanadas da 5 de outubro e do Largo de S. Pedro, disciplinar os ares condicionados, disciplinar as entidades que com a Câmara se relacionam, disciplinar tudo o que está indisciplinado. Mas agora, com os nervos, pergunto eu:
Como vou para a minha praia de Faro, não sendo Farense, mas que adoro como qualquer nativo, ou talvez mais? Deixo o carro antes da Ponte e vou de combóio até à Ponte, preparado para 2 Km até à zona da minha borracheira? Vou no barco que não pode navegar porque tem mais de nove metros?
Como Farense, se a praia me era condicionada, agora é-me vedada. Hugo Chavez dicit. Na velha máxima, para uns dura lex sed lex, para outros molaflex, molaflex. Os gajos com estacionamento lá se vão orientando...
Brincamos, ou colamos cartazes...
Moss Caló ilustra o texto que para tanto não tenho engenho...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Mais uma "quartafeiradeglória"


Hoje é mais uma "quartafeiradeglória". Aguardando as 7 badaladas vespertinas a que acudo descendo a rua em direcção à Adega Amável, quero dizer aos meus amigos que ela se iniciou bem cedo, perto de onde eu e o John Leão desfrutamos das delícias do estio barlaventino. Refiro-me a Vale de Centeanes, entre Lagoa e Carvoeiro. A jornada iniciou-se bem cedo, com uma partidinha de golfe no Gramacho (Grupo Pestana), eu e mais 7 amigos. Como essa coisa do golfe trato em blogue próprio (esfolagolfclub.blogspot.com)passemos à conversa de tertulianos. Após a partidinha que teve início às 7.50h, dirigimo-nos para casa de um filho de Olhão, grande negociante de peixe por atacado e para exportação. Sardinhas de Quarteira e Portimão (a primeira mais grada, mas do tamanho que agrada aos algarvios), besugo miúdo, parguetes, bicas, lulas, carapau. Tudo da nossa costa e do dia. Tintol de várias e boas marcas (alentejanos na maioria) e, para quem quisesse (foi o meu caso) um magnífico champagne (do franciú, pois claro!)que um amigo meu, e sócio do dono da casa, providenciou.Escusado será dizer que o bom medronho algarvio encerrava as hostilidades, ao qual eu não aderi, não pela estrada que tinha que galgar mas pelo champagne que me refrescava alma e garganta. O anfitrião era um típico olhanense, nado e criado no bairro do Bate Cú (não é só em Faro que existe). Foi proprietário de um "cabaret", nos anos 60/70, em Olhão, frente onde hoje é o mercado. Era o Bagdad. O terceiro a abrir numa série de "grandes casas", iniciada com a Romântica do Italiano Alberto, depois o Pescador, a seguir este Bagdad e, por fim, a Nave, onde ao fim de semana actuava o Marco Paulo, então a cumprir serviço militar em Beja. Tenho duas cenas no Bagdad de onde me saí sempre mal. A primeira com o ainda vivo Manuel de Oliveira, então o treinador de futebol do Farense. Era contestado pelos apoiantes do Reina (levara o Farense à 1ª divisão), entre os quais eu me contava e, sobretudo, pelo Dr. Cassiano que o acusava de dopar os jogadores. Não sei porque motivo, talvez copos a mais, o mister Oliveira embirrou comigo, chamando-me "Cassianito", quiçá por confundir-me com um dos filhos do distinto médico. Empurrão daqui, grito de acolá, confusão... e o homem não me saca de uma pistola e ameaça-me? Não me borrei porque não tive tempo. Fui transportado no ar para a rua, tendo o enfurecido treinador permanecido no estabelecimento, talvez pelos cocktails e garrafas de espumante que estavam por pagar e que as alternadeiras iam derramando por debaixo da mesa. Tempos depois dirigi-me novamente àquela nobre casa. Marcado como estava pelo porteiro, foi-me vedada a entrada. Nos meus imbecis 17 ou 18 anos, levanto a grimpa, saco do cartão da Berlitz (listado na diagonal a verde e vermelho) e aponto-o à face do matulão acompanhado de um "Sabe quem eu sou?". Só me recordo do soco (mais parecia um coice) que levei, indo para ao meio da estrada. E lá recolhi a penates, com o rabo entre as pernas e a frustração de não dançar com a Maria, uma alentejana roliça e bonitinha que por ali atacava.
Voltemos ao petisco de Centeanes. A coisa terminou em beleza, com a presença de um popular artista de "musicól",Dino da Conceição, cujo cartão de visita se publica. Com um currículo curioso (jogou no Portimonense no tempo do Alexandrino e já foi à televisão no programa "Preço Certo") o homem tinha um reportório de grande variedade e dotes de imitador, que fizeram a alegria dos presentes: fados do Marceneiro, do Farinha, do Carlos Ramos e, imaginem, do Joaquim Cordeiro!
Mas, passe a modéstia, quem fez a assistência vibrar foi cá o vosso amigo com o nosso hino não oficial "Casei, tive um menino".
E até logo que já são um quarto para as sete.

...para que de música não pereçam...


Tinha o texto escrito. Armei-me em conhecedor e ao tentar colocar uma foto da Natalie Cole tirada da net, lá se foi o trabalho. Vou tentar reescrever o texto e deixo para o Carlos Alves a tarefa que ainda não domino. Para a próxima, já lá estou.
Pois bem, 16 e 17 de Julho ficam marcados por dois concertos memoráveis, aqui bem perto. Pelo menos, para mim.
A 16, em digressão por grandes cidades europeias, caiu em Olhão a Natalie Cole. Essa mesmo. Grande senhora do Jazz e R&B. Foi um espectáculo irrepreensível, numa noite com a serenidade que só as noites algarvias têm. Com mais de 60, mas com presença e vitalidade de 40, brindou-nos com "Fever" na abertuta. "When I Fall in Love", "Miss You Like Crazy", "When I Fall in Love", "Wich You Love" e uma fantástica versão de "Old Man" do grande Neil Young seguiram-se num espectáculo crescente de empatia com o público. O momento alto foi o inesquecível "Unforgettable", em diálogo com o pai, o lendário Nat King Cole, que as maravilhas da tecnologia nos permitiram voltar a "ouver". Ele que deixou a filhota com 5 ou 6 anos.
A 17, depois de um espectáculo intimista de Kurt Elling (considerado por muitos como a voz masculina actual do Jazz), no Jardim da Verbena - visitem, que vale a pena- pela meia noite, aterrei na concentração motard para ver o Roger Hodgson, eterno vocalista dos Supertramp. Impressionante ver mais de 30 000 cúmplices motoqueiros entoar músicas como "Dreamer", "Give a Little Bit", "Logical Song", "Sister Monshine", "Home Again" e tantas outras de que o tempo me roubou o nome, mas não os inconfundíveis acordes dos teclados de Hodgson, com aquela voz irrepetível, que ainda continua a emprestar às suas interpretações.
Registo para a tranquilidade que se respira entre aquela mole humana que no terceiro fim de semana de Julho, todos os anos, teima em vir a Faro à procura de vivências que cada ano vão reinventando. Os respeitos ao Zé Amaro e à sua tropa motard.
Pois é, a 16 e 17 de Julho entoei velhos temas conhecidos e dei comigo a dar ao pé, levado por memórias com quase 40 de vida.

sábado, 17 de julho de 2010

Da ilha de São Vicente aos arredores da ilha de Faro

Caro Caló,

Acho que vou responder afirmativamente ao teu convite, pois parece-me um ambiente que também gostaria de frequentar. Estórias de taberna bem contadas dão-me um certo gozo.

Estes dias sopra na minha segunda intimidade - a que vem a seguir à Ivone, aos meus filhos e a meia dúzia de parentes de sangue - uma ventania mórbida, que urge escorraçar. Mas não sei como fazê-lo. Como não sei com rigor invocar o divino nem acredito piamente nos meteorologistas da alma para me ajudarem a afastar a tempestade, aguardo que passe com a possível serenidade. Na mesma semana faleceram por esta ordem três dos meus afins: primeiramente, na Bélgica, um amigo que ali se exilara e para sempre ficou - o Jorge Leiria conheceu-o em minha casa, em Alporchinhos -, logo a seguir a irmã conflituosa de um amigo do peito, mas que desde garoto me dedicava alguma atenção e, por último, o Toi Duarte, um castiço comerciante mindelense dos tempos do meu pai, com quem eu cultivava laços de afeição e de muito respeito - para mim, isto ainda existe. Como se não bastasse, o Pakey, que viste de passagem no ano em que vieste ao Mindelo, definha e esmorece, ora numa cama de hospital, ora em casa da Nanda, num estóico combate contra um monstro prolongado, que me tira o sono

De modo que estou para o vosso blogue um pouco como estava a novel criada do Chico Melo, no mês em que lhe morreram de uma assentada dois irmãos e uma cunhada. Farta de servir pratos de canja nos velórios, que em São Vicente ainda se fazem em casa dos defuntos, disse assim para o meu amigo Jorginho, filho do Chico: - Senhor Jorge,no fim do mês vou-me embora de casa do seu pai, pois desde que entrei ao serviço já lhe morreram 3 pessoas -, ao que o Jorginho retorquiu: - Ó menina, pensa bem no que vais fazer porque com este currículo não sei se arranjas tão depressa outro emprego.

Um abraço e... até ver.

JL

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Mais um Leão ao nosso lado


Na Taberna Amável pudemos (re)encontrar o petisco e não a comida,o copo e não a bebida, e a conversa fiada. Há uma expressão curiosa do Estado Novo ( que é o estado anterior ao estado a que isto chegou), da autoria do António Ferro, que é a "Política do Espírito". Para o bem e para o mal, fizemo-nos com/contra ela. Seja como "foi", na taberna amável exercitamos a curiosidade, quiçá paixão, pelo "espírito" das coisas, - seja do "rating" da república ou das finanças pessoais, da poesia ou do futebol, do rock ou do fado, do destino dos povos ou do marido da vizinha. Não é uma questão de importância, é uma questão de intensidade momentânea. Esta conversa fiada não podia ficar circunscrita a meia dúzia de pinguços que se encontram uma vez por semana, durante 3 ou 4 horas, entre quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas douradas, quatro rosas num jardim. A Tertúlia Amável vai cruzar o oceano e trazer de Cabo Verde um enorme amigo. O John Leão é um dos nossos!