quinta-feira, 22 de julho de 2010

Hugo Chaves e a praia de faro


Bom. Dou de barato que é necessário disciplinar o trânsito, disciplinar os funcionários da câmara, disciplinar o estacionamento na 5 de Outubro, disciplinar o estacionamento no Largo do Mercado, disciplinar a hora dos bares da baixa, disciplinar o parque campismo da Praia de Faro, disciplinar as esplanadas da 5 de outubro e do Largo de S. Pedro, disciplinar os ares condicionados, disciplinar as entidades que com a Câmara se relacionam, disciplinar tudo o que está indisciplinado. Mas agora, com os nervos, pergunto eu:
Como vou para a minha praia de Faro, não sendo Farense, mas que adoro como qualquer nativo, ou talvez mais? Deixo o carro antes da Ponte e vou de combóio até à Ponte, preparado para 2 Km até à zona da minha borracheira? Vou no barco que não pode navegar porque tem mais de nove metros?
Como Farense, se a praia me era condicionada, agora é-me vedada. Hugo Chavez dicit. Na velha máxima, para uns dura lex sed lex, para outros molaflex, molaflex. Os gajos com estacionamento lá se vão orientando...
Brincamos, ou colamos cartazes...
Moss Caló ilustra o texto que para tanto não tenho engenho...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Mais uma "quartafeiradeglória"


Hoje é mais uma "quartafeiradeglória". Aguardando as 7 badaladas vespertinas a que acudo descendo a rua em direcção à Adega Amável, quero dizer aos meus amigos que ela se iniciou bem cedo, perto de onde eu e o John Leão desfrutamos das delícias do estio barlaventino. Refiro-me a Vale de Centeanes, entre Lagoa e Carvoeiro. A jornada iniciou-se bem cedo, com uma partidinha de golfe no Gramacho (Grupo Pestana), eu e mais 7 amigos. Como essa coisa do golfe trato em blogue próprio (esfolagolfclub.blogspot.com)passemos à conversa de tertulianos. Após a partidinha que teve início às 7.50h, dirigimo-nos para casa de um filho de Olhão, grande negociante de peixe por atacado e para exportação. Sardinhas de Quarteira e Portimão (a primeira mais grada, mas do tamanho que agrada aos algarvios), besugo miúdo, parguetes, bicas, lulas, carapau. Tudo da nossa costa e do dia. Tintol de várias e boas marcas (alentejanos na maioria) e, para quem quisesse (foi o meu caso) um magnífico champagne (do franciú, pois claro!)que um amigo meu, e sócio do dono da casa, providenciou.Escusado será dizer que o bom medronho algarvio encerrava as hostilidades, ao qual eu não aderi, não pela estrada que tinha que galgar mas pelo champagne que me refrescava alma e garganta. O anfitrião era um típico olhanense, nado e criado no bairro do Bate Cú (não é só em Faro que existe). Foi proprietário de um "cabaret", nos anos 60/70, em Olhão, frente onde hoje é o mercado. Era o Bagdad. O terceiro a abrir numa série de "grandes casas", iniciada com a Romântica do Italiano Alberto, depois o Pescador, a seguir este Bagdad e, por fim, a Nave, onde ao fim de semana actuava o Marco Paulo, então a cumprir serviço militar em Beja. Tenho duas cenas no Bagdad de onde me saí sempre mal. A primeira com o ainda vivo Manuel de Oliveira, então o treinador de futebol do Farense. Era contestado pelos apoiantes do Reina (levara o Farense à 1ª divisão), entre os quais eu me contava e, sobretudo, pelo Dr. Cassiano que o acusava de dopar os jogadores. Não sei porque motivo, talvez copos a mais, o mister Oliveira embirrou comigo, chamando-me "Cassianito", quiçá por confundir-me com um dos filhos do distinto médico. Empurrão daqui, grito de acolá, confusão... e o homem não me saca de uma pistola e ameaça-me? Não me borrei porque não tive tempo. Fui transportado no ar para a rua, tendo o enfurecido treinador permanecido no estabelecimento, talvez pelos cocktails e garrafas de espumante que estavam por pagar e que as alternadeiras iam derramando por debaixo da mesa. Tempos depois dirigi-me novamente àquela nobre casa. Marcado como estava pelo porteiro, foi-me vedada a entrada. Nos meus imbecis 17 ou 18 anos, levanto a grimpa, saco do cartão da Berlitz (listado na diagonal a verde e vermelho) e aponto-o à face do matulão acompanhado de um "Sabe quem eu sou?". Só me recordo do soco (mais parecia um coice) que levei, indo para ao meio da estrada. E lá recolhi a penates, com o rabo entre as pernas e a frustração de não dançar com a Maria, uma alentejana roliça e bonitinha que por ali atacava.
Voltemos ao petisco de Centeanes. A coisa terminou em beleza, com a presença de um popular artista de "musicól",Dino da Conceição, cujo cartão de visita se publica. Com um currículo curioso (jogou no Portimonense no tempo do Alexandrino e já foi à televisão no programa "Preço Certo") o homem tinha um reportório de grande variedade e dotes de imitador, que fizeram a alegria dos presentes: fados do Marceneiro, do Farinha, do Carlos Ramos e, imaginem, do Joaquim Cordeiro!
Mas, passe a modéstia, quem fez a assistência vibrar foi cá o vosso amigo com o nosso hino não oficial "Casei, tive um menino".
E até logo que já são um quarto para as sete.

...para que de música não pereçam...


Tinha o texto escrito. Armei-me em conhecedor e ao tentar colocar uma foto da Natalie Cole tirada da net, lá se foi o trabalho. Vou tentar reescrever o texto e deixo para o Carlos Alves a tarefa que ainda não domino. Para a próxima, já lá estou.
Pois bem, 16 e 17 de Julho ficam marcados por dois concertos memoráveis, aqui bem perto. Pelo menos, para mim.
A 16, em digressão por grandes cidades europeias, caiu em Olhão a Natalie Cole. Essa mesmo. Grande senhora do Jazz e R&B. Foi um espectáculo irrepreensível, numa noite com a serenidade que só as noites algarvias têm. Com mais de 60, mas com presença e vitalidade de 40, brindou-nos com "Fever" na abertuta. "When I Fall in Love", "Miss You Like Crazy", "When I Fall in Love", "Wich You Love" e uma fantástica versão de "Old Man" do grande Neil Young seguiram-se num espectáculo crescente de empatia com o público. O momento alto foi o inesquecível "Unforgettable", em diálogo com o pai, o lendário Nat King Cole, que as maravilhas da tecnologia nos permitiram voltar a "ouver". Ele que deixou a filhota com 5 ou 6 anos.
A 17, depois de um espectáculo intimista de Kurt Elling (considerado por muitos como a voz masculina actual do Jazz), no Jardim da Verbena - visitem, que vale a pena- pela meia noite, aterrei na concentração motard para ver o Roger Hodgson, eterno vocalista dos Supertramp. Impressionante ver mais de 30 000 cúmplices motoqueiros entoar músicas como "Dreamer", "Give a Little Bit", "Logical Song", "Sister Monshine", "Home Again" e tantas outras de que o tempo me roubou o nome, mas não os inconfundíveis acordes dos teclados de Hodgson, com aquela voz irrepetível, que ainda continua a emprestar às suas interpretações.
Registo para a tranquilidade que se respira entre aquela mole humana que no terceiro fim de semana de Julho, todos os anos, teima em vir a Faro à procura de vivências que cada ano vão reinventando. Os respeitos ao Zé Amaro e à sua tropa motard.
Pois é, a 16 e 17 de Julho entoei velhos temas conhecidos e dei comigo a dar ao pé, levado por memórias com quase 40 de vida.

sábado, 17 de julho de 2010

Da ilha de São Vicente aos arredores da ilha de Faro

Caro Caló,

Acho que vou responder afirmativamente ao teu convite, pois parece-me um ambiente que também gostaria de frequentar. Estórias de taberna bem contadas dão-me um certo gozo.

Estes dias sopra na minha segunda intimidade - a que vem a seguir à Ivone, aos meus filhos e a meia dúzia de parentes de sangue - uma ventania mórbida, que urge escorraçar. Mas não sei como fazê-lo. Como não sei com rigor invocar o divino nem acredito piamente nos meteorologistas da alma para me ajudarem a afastar a tempestade, aguardo que passe com a possível serenidade. Na mesma semana faleceram por esta ordem três dos meus afins: primeiramente, na Bélgica, um amigo que ali se exilara e para sempre ficou - o Jorge Leiria conheceu-o em minha casa, em Alporchinhos -, logo a seguir a irmã conflituosa de um amigo do peito, mas que desde garoto me dedicava alguma atenção e, por último, o Toi Duarte, um castiço comerciante mindelense dos tempos do meu pai, com quem eu cultivava laços de afeição e de muito respeito - para mim, isto ainda existe. Como se não bastasse, o Pakey, que viste de passagem no ano em que vieste ao Mindelo, definha e esmorece, ora numa cama de hospital, ora em casa da Nanda, num estóico combate contra um monstro prolongado, que me tira o sono

De modo que estou para o vosso blogue um pouco como estava a novel criada do Chico Melo, no mês em que lhe morreram de uma assentada dois irmãos e uma cunhada. Farta de servir pratos de canja nos velórios, que em São Vicente ainda se fazem em casa dos defuntos, disse assim para o meu amigo Jorginho, filho do Chico: - Senhor Jorge,no fim do mês vou-me embora de casa do seu pai, pois desde que entrei ao serviço já lhe morreram 3 pessoas -, ao que o Jorginho retorquiu: - Ó menina, pensa bem no que vais fazer porque com este currículo não sei se arranjas tão depressa outro emprego.

Um abraço e... até ver.

JL

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Mais um Leão ao nosso lado


Na Taberna Amável pudemos (re)encontrar o petisco e não a comida,o copo e não a bebida, e a conversa fiada. Há uma expressão curiosa do Estado Novo ( que é o estado anterior ao estado a que isto chegou), da autoria do António Ferro, que é a "Política do Espírito". Para o bem e para o mal, fizemo-nos com/contra ela. Seja como "foi", na taberna amável exercitamos a curiosidade, quiçá paixão, pelo "espírito" das coisas, - seja do "rating" da república ou das finanças pessoais, da poesia ou do futebol, do rock ou do fado, do destino dos povos ou do marido da vizinha. Não é uma questão de importância, é uma questão de intensidade momentânea. Esta conversa fiada não podia ficar circunscrita a meia dúzia de pinguços que se encontram uma vez por semana, durante 3 ou 4 horas, entre quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas douradas, quatro rosas num jardim. A Tertúlia Amável vai cruzar o oceano e trazer de Cabo Verde um enorme amigo. O John Leão é um dos nossos!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Grandes pingas I


De vez em quando o meu palato tem a sorte de receber a visita de um grande vinho. Este fim de semana foi premiado com um Pera Manca de 2001. Comecei por franzir o nariz à data, pois cada vez mais aprecio vinhos jovens.Mas por alguma razão o Pera Manca é talvez mais respeitado de todos os vinhos alentejanos. Engarrafado somente em anos especiais pela Adega da Cartuxa, este 2001 está em boa forma para sair do descanso e ir pro copo. Com castas da região, 60% Trincadeira e 40% Aragonez,mostrou força, como se os 8 anos não tivessem passado.
Esta pinga mereceu que me desse ao trabalho de partilhar com os meus confrades algumas coisas respingadas sobre a história que precede esta grande Adega.
A CARTUXA DE SANTA MARIA SCALA COELI foi construída em Évora, entre 1587 e 1598. Após a Restauração, a Casa de Bragança enriqueceu artísticamente a igreja, momumento nacional: do Séc. XVII tem o pórtico e fachada de mármore, e no século seguinte, de D. João V herdou o retábulo de talha dourada.
O mosteiro em si é pobre e simples, mas espaçoso: o claustro, com jardim dum hectare, é o maior de Portugal. Nele se encontram as celas, onde os cartuxos se consagram à oração na solidão e no silêncio. Das celas vão ao coro três vezes, Missa de manhã, Vésperas à tarde, Matinas e Laudes à meia-noite: quatro horas de canto gregoriano, sem acompanhamento instrumental, parte em latim mas a maior parte em português.
Como pobres de Cristo, os próprios monges atendem à manutenção da comunidade. A austeridade da sua vida permite ter tempo para uma larga dedicação, na cela, às ocupações do espírito: devoções, leitura, meditação, contemplação.
Em 1834, com a expulsão das ordens religiosas, o mosteiro passou a ser do Estado que o aproveitou para Escola de agricultura (a monumental igreja serviu de celeiro). No fim do século a família Eugénio de Almeida adquiriu as ruínas. Em meados do séc. XX o bisneto, Vasco Maria, Conde de Vil’alva, decidiu restaurar o mosteiro e devolvê-lo à Ordem. Sete foram os fundadores em 1587 e sete os restauradores em 1960.
O mosteiro fica perto de Évora e o seu sino, especialmente o da meia-noite, faz parte do encanto da cidade património da humanidade.

Muita saúde para Cartuxa e Cartuxos é o que se deseja.
Carlos Alves

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Sporting, os Pinguços e os Cabeçudos


Saí mais cedo do trabalho para ver o jogo Sporting - Young Boys. Não dispondo do chamado "canal dos ricos" dirigi-me à Adega Amável, e amavelmente solicitei ao taberneiro que ligasse a televisão mesmo que sem som.
Pergunta-me o João:
- Vai dar algum jogo?
- Sim, o Sporting!
Preparando-me para arrostar com um chorrilho de perguntas antes que a ligação fosse estabelecida, eis que sou salvo pelo gongue dos copos a tilintar e da gaveta da caixa registadora a cantar, já que de registo, presumo, pouca função terá.
Foi feita a minha vontade.
Não sem surpresa chega o primeiro pinguço que, prantando-se ao meu lado, me chaga o juízo:
- Quem está a jogar?
- O Sporting, esclareço.
- Com quem?
- Com os Young Boys.
- Aonde?
- Na Suiça.
E por aí a fora.
E outros pinguços vão chegando, vão-se substituindo e, à base de barrigadas, encostos de ombro e pequenos toques de cotovêlo no meu fígado há muito debilitado, vão repetindo as mesmas perguntas, ao ouvido, com um bafo morno já tisnado da bebida e dos cigarros de enrolar do dia. E os jogadores a correr, e a bola (jabulu ou jabiru ou lá como é que se chama, esta de côr laranja) a rolar.
- Estes gajos, pelo nome devem ser ingleses, palpita um!
- Olhe, são da xôxinlandia, apeteceu-me dizer.
Prudentemente calei-me.
Mas o pior estava para vir! Apercebendo-se da minha cada vez maior sizudez, entravam pelo caminho da provocação sórdida e velada:
- Quem são aqueles gajos que não jogam nada? (referindo-se às cores alvi-verdes);
- Quem é aquele ponta de lança que mandou de cabeça a bola à barra? (conhecendo de ginjeira o figurão que se dá pela alcunha de o Maniche).
Foi então que perguntei a mim próprio, o que levará esta gente, que visivelmente se está marimbando para o Sporting e para o jogo, a chatear um cristão, que visivelmente quer desfrutar do mesmo?
A resposta é simples e exige alguma reflexão.
A maioria do povo português é, por defeito, cabeçuda. Quem assume outras simpatias clubísticas, fá-lo por opção, e é excluído do lote dos clubisticamente correctos.
Os cabeçudos por defeito (ou batanetes, ou lampiões, como lhes queiram chamar) não são de um modo geral agressivos, mas são chatos e impertinentes. A esta atitude despropositada resulta, muito provavelmente, do sangramento económico a que os sujeitaram vários governos, mais mundanamente e em consequência, da falta de dinheiro para o copo ou, quiçá, do receio de que a mulher, mais tarde ou mais cedo, lhes ponha as grinaldas.
Por mim, dispensarei ver o meu clube na televisão em locais públicos. E se ausências do meu amigo Vitor Pelica - companheiro de serões de bola - a isso me obrigarem, não terei outro remédio senão assinar, em fim de carreira e com o Joaquim Oliveira, o contrato da minha vida.

Jorge Leiria