quarta-feira, 21 de julho de 2010

...para que de música não pereçam...


Tinha o texto escrito. Armei-me em conhecedor e ao tentar colocar uma foto da Natalie Cole tirada da net, lá se foi o trabalho. Vou tentar reescrever o texto e deixo para o Carlos Alves a tarefa que ainda não domino. Para a próxima, já lá estou.
Pois bem, 16 e 17 de Julho ficam marcados por dois concertos memoráveis, aqui bem perto. Pelo menos, para mim.
A 16, em digressão por grandes cidades europeias, caiu em Olhão a Natalie Cole. Essa mesmo. Grande senhora do Jazz e R&B. Foi um espectáculo irrepreensível, numa noite com a serenidade que só as noites algarvias têm. Com mais de 60, mas com presença e vitalidade de 40, brindou-nos com "Fever" na abertuta. "When I Fall in Love", "Miss You Like Crazy", "When I Fall in Love", "Wich You Love" e uma fantástica versão de "Old Man" do grande Neil Young seguiram-se num espectáculo crescente de empatia com o público. O momento alto foi o inesquecível "Unforgettable", em diálogo com o pai, o lendário Nat King Cole, que as maravilhas da tecnologia nos permitiram voltar a "ouver". Ele que deixou a filhota com 5 ou 6 anos.
A 17, depois de um espectáculo intimista de Kurt Elling (considerado por muitos como a voz masculina actual do Jazz), no Jardim da Verbena - visitem, que vale a pena- pela meia noite, aterrei na concentração motard para ver o Roger Hodgson, eterno vocalista dos Supertramp. Impressionante ver mais de 30 000 cúmplices motoqueiros entoar músicas como "Dreamer", "Give a Little Bit", "Logical Song", "Sister Monshine", "Home Again" e tantas outras de que o tempo me roubou o nome, mas não os inconfundíveis acordes dos teclados de Hodgson, com aquela voz irrepetível, que ainda continua a emprestar às suas interpretações.
Registo para a tranquilidade que se respira entre aquela mole humana que no terceiro fim de semana de Julho, todos os anos, teima em vir a Faro à procura de vivências que cada ano vão reinventando. Os respeitos ao Zé Amaro e à sua tropa motard.
Pois é, a 16 e 17 de Julho entoei velhos temas conhecidos e dei comigo a dar ao pé, levado por memórias com quase 40 de vida.

sábado, 17 de julho de 2010

Da ilha de São Vicente aos arredores da ilha de Faro

Caro Caló,

Acho que vou responder afirmativamente ao teu convite, pois parece-me um ambiente que também gostaria de frequentar. Estórias de taberna bem contadas dão-me um certo gozo.

Estes dias sopra na minha segunda intimidade - a que vem a seguir à Ivone, aos meus filhos e a meia dúzia de parentes de sangue - uma ventania mórbida, que urge escorraçar. Mas não sei como fazê-lo. Como não sei com rigor invocar o divino nem acredito piamente nos meteorologistas da alma para me ajudarem a afastar a tempestade, aguardo que passe com a possível serenidade. Na mesma semana faleceram por esta ordem três dos meus afins: primeiramente, na Bélgica, um amigo que ali se exilara e para sempre ficou - o Jorge Leiria conheceu-o em minha casa, em Alporchinhos -, logo a seguir a irmã conflituosa de um amigo do peito, mas que desde garoto me dedicava alguma atenção e, por último, o Toi Duarte, um castiço comerciante mindelense dos tempos do meu pai, com quem eu cultivava laços de afeição e de muito respeito - para mim, isto ainda existe. Como se não bastasse, o Pakey, que viste de passagem no ano em que vieste ao Mindelo, definha e esmorece, ora numa cama de hospital, ora em casa da Nanda, num estóico combate contra um monstro prolongado, que me tira o sono

De modo que estou para o vosso blogue um pouco como estava a novel criada do Chico Melo, no mês em que lhe morreram de uma assentada dois irmãos e uma cunhada. Farta de servir pratos de canja nos velórios, que em São Vicente ainda se fazem em casa dos defuntos, disse assim para o meu amigo Jorginho, filho do Chico: - Senhor Jorge,no fim do mês vou-me embora de casa do seu pai, pois desde que entrei ao serviço já lhe morreram 3 pessoas -, ao que o Jorginho retorquiu: - Ó menina, pensa bem no que vais fazer porque com este currículo não sei se arranjas tão depressa outro emprego.

Um abraço e... até ver.

JL

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Mais um Leão ao nosso lado


Na Taberna Amável pudemos (re)encontrar o petisco e não a comida,o copo e não a bebida, e a conversa fiada. Há uma expressão curiosa do Estado Novo ( que é o estado anterior ao estado a que isto chegou), da autoria do António Ferro, que é a "Política do Espírito". Para o bem e para o mal, fizemo-nos com/contra ela. Seja como "foi", na taberna amável exercitamos a curiosidade, quiçá paixão, pelo "espírito" das coisas, - seja do "rating" da república ou das finanças pessoais, da poesia ou do futebol, do rock ou do fado, do destino dos povos ou do marido da vizinha. Não é uma questão de importância, é uma questão de intensidade momentânea. Esta conversa fiada não podia ficar circunscrita a meia dúzia de pinguços que se encontram uma vez por semana, durante 3 ou 4 horas, entre quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas douradas, quatro rosas num jardim. A Tertúlia Amável vai cruzar o oceano e trazer de Cabo Verde um enorme amigo. O John Leão é um dos nossos!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Grandes pingas I


De vez em quando o meu palato tem a sorte de receber a visita de um grande vinho. Este fim de semana foi premiado com um Pera Manca de 2001. Comecei por franzir o nariz à data, pois cada vez mais aprecio vinhos jovens.Mas por alguma razão o Pera Manca é talvez mais respeitado de todos os vinhos alentejanos. Engarrafado somente em anos especiais pela Adega da Cartuxa, este 2001 está em boa forma para sair do descanso e ir pro copo. Com castas da região, 60% Trincadeira e 40% Aragonez,mostrou força, como se os 8 anos não tivessem passado.
Esta pinga mereceu que me desse ao trabalho de partilhar com os meus confrades algumas coisas respingadas sobre a história que precede esta grande Adega.
A CARTUXA DE SANTA MARIA SCALA COELI foi construída em Évora, entre 1587 e 1598. Após a Restauração, a Casa de Bragança enriqueceu artísticamente a igreja, momumento nacional: do Séc. XVII tem o pórtico e fachada de mármore, e no século seguinte, de D. João V herdou o retábulo de talha dourada.
O mosteiro em si é pobre e simples, mas espaçoso: o claustro, com jardim dum hectare, é o maior de Portugal. Nele se encontram as celas, onde os cartuxos se consagram à oração na solidão e no silêncio. Das celas vão ao coro três vezes, Missa de manhã, Vésperas à tarde, Matinas e Laudes à meia-noite: quatro horas de canto gregoriano, sem acompanhamento instrumental, parte em latim mas a maior parte em português.
Como pobres de Cristo, os próprios monges atendem à manutenção da comunidade. A austeridade da sua vida permite ter tempo para uma larga dedicação, na cela, às ocupações do espírito: devoções, leitura, meditação, contemplação.
Em 1834, com a expulsão das ordens religiosas, o mosteiro passou a ser do Estado que o aproveitou para Escola de agricultura (a monumental igreja serviu de celeiro). No fim do século a família Eugénio de Almeida adquiriu as ruínas. Em meados do séc. XX o bisneto, Vasco Maria, Conde de Vil’alva, decidiu restaurar o mosteiro e devolvê-lo à Ordem. Sete foram os fundadores em 1587 e sete os restauradores em 1960.
O mosteiro fica perto de Évora e o seu sino, especialmente o da meia-noite, faz parte do encanto da cidade património da humanidade.

Muita saúde para Cartuxa e Cartuxos é o que se deseja.
Carlos Alves

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Sporting, os Pinguços e os Cabeçudos


Saí mais cedo do trabalho para ver o jogo Sporting - Young Boys. Não dispondo do chamado "canal dos ricos" dirigi-me à Adega Amável, e amavelmente solicitei ao taberneiro que ligasse a televisão mesmo que sem som.
Pergunta-me o João:
- Vai dar algum jogo?
- Sim, o Sporting!
Preparando-me para arrostar com um chorrilho de perguntas antes que a ligação fosse estabelecida, eis que sou salvo pelo gongue dos copos a tilintar e da gaveta da caixa registadora a cantar, já que de registo, presumo, pouca função terá.
Foi feita a minha vontade.
Não sem surpresa chega o primeiro pinguço que, prantando-se ao meu lado, me chaga o juízo:
- Quem está a jogar?
- O Sporting, esclareço.
- Com quem?
- Com os Young Boys.
- Aonde?
- Na Suiça.
E por aí a fora.
E outros pinguços vão chegando, vão-se substituindo e, à base de barrigadas, encostos de ombro e pequenos toques de cotovêlo no meu fígado há muito debilitado, vão repetindo as mesmas perguntas, ao ouvido, com um bafo morno já tisnado da bebida e dos cigarros de enrolar do dia. E os jogadores a correr, e a bola (jabulu ou jabiru ou lá como é que se chama, esta de côr laranja) a rolar.
- Estes gajos, pelo nome devem ser ingleses, palpita um!
- Olhe, são da xôxinlandia, apeteceu-me dizer.
Prudentemente calei-me.
Mas o pior estava para vir! Apercebendo-se da minha cada vez maior sizudez, entravam pelo caminho da provocação sórdida e velada:
- Quem são aqueles gajos que não jogam nada? (referindo-se às cores alvi-verdes);
- Quem é aquele ponta de lança que mandou de cabeça a bola à barra? (conhecendo de ginjeira o figurão que se dá pela alcunha de o Maniche).
Foi então que perguntei a mim próprio, o que levará esta gente, que visivelmente se está marimbando para o Sporting e para o jogo, a chatear um cristão, que visivelmente quer desfrutar do mesmo?
A resposta é simples e exige alguma reflexão.
A maioria do povo português é, por defeito, cabeçuda. Quem assume outras simpatias clubísticas, fá-lo por opção, e é excluído do lote dos clubisticamente correctos.
Os cabeçudos por defeito (ou batanetes, ou lampiões, como lhes queiram chamar) não são de um modo geral agressivos, mas são chatos e impertinentes. A esta atitude despropositada resulta, muito provavelmente, do sangramento económico a que os sujeitaram vários governos, mais mundanamente e em consequência, da falta de dinheiro para o copo ou, quiçá, do receio de que a mulher, mais tarde ou mais cedo, lhes ponha as grinaldas.
Por mim, dispensarei ver o meu clube na televisão em locais públicos. E se ausências do meu amigo Vitor Pelica - companheiro de serões de bola - a isso me obrigarem, não terei outro remédio senão assinar, em fim de carreira e com o Joaquim Oliveira, o contrato da minha vida.

Jorge Leiria

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O senhor tem cabeça de porco?


Ontem voltámos a deliciar-nos com a excelente cabeça de porco da nossa Adega Amável.
Se há comida adequada à crise é uma cabeça de porco. Uma cabeça de porco alimenta 4 ou 5 mânfios nas calminhas (tem à volta de 5 kilos). É fácil de adquirir (porque quase todos os talhos têm porco e porque os porcos têm todos uma cabeça)e é barato (não chega a um euro por quilo). No talho não pergunte “tem cabeça de porco?” pois o cachaço de alguns talhantes muitas vezes não é de dimensões inferiores ao cachaço de um suíno com 16 ou 17 arrobas.
O segredo da preparação é lavá-la muito bem lavadinha(lavadinha, toda crua...)e rapá-la bem. À falta de depiladora, pode usar uma navalha e imaginar-se o Pavão a fazer a barba ao saudoso Dr. Gonçalves, professor de matemática no Liceu de Faro, algumas décadas atrás. Não usar creme de barba nem aftershaves (pode alterar o sabor).Após a raspagem esfregue bem a cabeça com sal.
Numa panela grande aloure em azeite seis chalotas inteiras e seis dentes de alho descascados, um alho francês e duas cenouras, tudo cortado aos bocados. Deposite a cabeça (do porco)na panela e entorne-lhe meia garrafa de vinho branco, entre meio e um litro de caldo de galinha e, por fim, um cálice de cognac. Junte-lhe uns grãos de pimenta preta, sal, louro, um molho de ervas aromáticas e um talo de aipo cortado em troços . Tape e leve ao forno em lume brando, cerca de três horas. Vá abrindo e molhando. Fica pronto quando a carne se começar a despegar da ossada.
Retire a cabeça inteira para cima de uma tábua, com uma faca afiada, comece a descascar a cabeça de cima para baixo, aos bocadinhos. Lance-lhe coentros em abundância e alho picadinho. Já frio, na travessa ou no prato, tempere a gosto com azeite virgem e vinagre de qualidade.
Pode integrar também a orelha, mas não aconselho pois esta é bem mais rija e para sua limpeza não bastam cotonetes.
Tertuliense Caló

domingo, 4 de julho de 2010

O Amaro, o Azeite, e o Nosso Senhor dos Aflitos


Ainda sobre Olhão, e da mesma fonte da carta do marítimo, segue esta história e foto:
"O Amaro era um marítimo que nos seus últimos anos ganhava a vida apanhando as "cascas" do choco que geralmente era desperdiçado por todos. Certo é que estas "cascas" depois de moídas eram comercializadas.
O Amaro era também muito religioso e todos os dias ia ao Senhor dos Aflitos (nas traseiras da Igreja Grande) rezar. O sacristão, que gostava de fazer partidas aos mais simples que, como o Amaro, lá iam rezar e pedir, resolveu um dia brincar com ele.
Assim, ficou à espera que ele lá chegasse e começasse com os seus pedidos íntimos ao Senhor.
Quando este terminou e voltou as costas para se ir embora, o sacristão escondido por trás do Senhor dos Aflitos, fazendo voz de alma-penada-do-outro-mundo diz:
- Vê lá se para a próxima trazes um litrinho de azeite!
Lembramos que na época a iluminação não era eléctrica e o azeite era usado para, em lamparinas próprias, iluminar os santos. Era por isso, frequente os fiéis fornecerem o azeite.
O Amaro voltou-se, espantado com a voz do outro mundo, e olhando para o Senhor dos Aflitos, respondeu:
- Entãããã? Nã me digas que também te ofereceram uma teca de peixe espada p'ra fritar!..."