sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Sporting, os Pinguços e os Cabeçudos


Saí mais cedo do trabalho para ver o jogo Sporting - Young Boys. Não dispondo do chamado "canal dos ricos" dirigi-me à Adega Amável, e amavelmente solicitei ao taberneiro que ligasse a televisão mesmo que sem som.
Pergunta-me o João:
- Vai dar algum jogo?
- Sim, o Sporting!
Preparando-me para arrostar com um chorrilho de perguntas antes que a ligação fosse estabelecida, eis que sou salvo pelo gongue dos copos a tilintar e da gaveta da caixa registadora a cantar, já que de registo, presumo, pouca função terá.
Foi feita a minha vontade.
Não sem surpresa chega o primeiro pinguço que, prantando-se ao meu lado, me chaga o juízo:
- Quem está a jogar?
- O Sporting, esclareço.
- Com quem?
- Com os Young Boys.
- Aonde?
- Na Suiça.
E por aí a fora.
E outros pinguços vão chegando, vão-se substituindo e, à base de barrigadas, encostos de ombro e pequenos toques de cotovêlo no meu fígado há muito debilitado, vão repetindo as mesmas perguntas, ao ouvido, com um bafo morno já tisnado da bebida e dos cigarros de enrolar do dia. E os jogadores a correr, e a bola (jabulu ou jabiru ou lá como é que se chama, esta de côr laranja) a rolar.
- Estes gajos, pelo nome devem ser ingleses, palpita um!
- Olhe, são da xôxinlandia, apeteceu-me dizer.
Prudentemente calei-me.
Mas o pior estava para vir! Apercebendo-se da minha cada vez maior sizudez, entravam pelo caminho da provocação sórdida e velada:
- Quem são aqueles gajos que não jogam nada? (referindo-se às cores alvi-verdes);
- Quem é aquele ponta de lança que mandou de cabeça a bola à barra? (conhecendo de ginjeira o figurão que se dá pela alcunha de o Maniche).
Foi então que perguntei a mim próprio, o que levará esta gente, que visivelmente se está marimbando para o Sporting e para o jogo, a chatear um cristão, que visivelmente quer desfrutar do mesmo?
A resposta é simples e exige alguma reflexão.
A maioria do povo português é, por defeito, cabeçuda. Quem assume outras simpatias clubísticas, fá-lo por opção, e é excluído do lote dos clubisticamente correctos.
Os cabeçudos por defeito (ou batanetes, ou lampiões, como lhes queiram chamar) não são de um modo geral agressivos, mas são chatos e impertinentes. A esta atitude despropositada resulta, muito provavelmente, do sangramento económico a que os sujeitaram vários governos, mais mundanamente e em consequência, da falta de dinheiro para o copo ou, quiçá, do receio de que a mulher, mais tarde ou mais cedo, lhes ponha as grinaldas.
Por mim, dispensarei ver o meu clube na televisão em locais públicos. E se ausências do meu amigo Vitor Pelica - companheiro de serões de bola - a isso me obrigarem, não terei outro remédio senão assinar, em fim de carreira e com o Joaquim Oliveira, o contrato da minha vida.

Jorge Leiria

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O senhor tem cabeça de porco?


Ontem voltámos a deliciar-nos com a excelente cabeça de porco da nossa Adega Amável.
Se há comida adequada à crise é uma cabeça de porco. Uma cabeça de porco alimenta 4 ou 5 mânfios nas calminhas (tem à volta de 5 kilos). É fácil de adquirir (porque quase todos os talhos têm porco e porque os porcos têm todos uma cabeça)e é barato (não chega a um euro por quilo). No talho não pergunte “tem cabeça de porco?” pois o cachaço de alguns talhantes muitas vezes não é de dimensões inferiores ao cachaço de um suíno com 16 ou 17 arrobas.
O segredo da preparação é lavá-la muito bem lavadinha(lavadinha, toda crua...)e rapá-la bem. À falta de depiladora, pode usar uma navalha e imaginar-se o Pavão a fazer a barba ao saudoso Dr. Gonçalves, professor de matemática no Liceu de Faro, algumas décadas atrás. Não usar creme de barba nem aftershaves (pode alterar o sabor).Após a raspagem esfregue bem a cabeça com sal.
Numa panela grande aloure em azeite seis chalotas inteiras e seis dentes de alho descascados, um alho francês e duas cenouras, tudo cortado aos bocados. Deposite a cabeça (do porco)na panela e entorne-lhe meia garrafa de vinho branco, entre meio e um litro de caldo de galinha e, por fim, um cálice de cognac. Junte-lhe uns grãos de pimenta preta, sal, louro, um molho de ervas aromáticas e um talo de aipo cortado em troços . Tape e leve ao forno em lume brando, cerca de três horas. Vá abrindo e molhando. Fica pronto quando a carne se começar a despegar da ossada.
Retire a cabeça inteira para cima de uma tábua, com uma faca afiada, comece a descascar a cabeça de cima para baixo, aos bocadinhos. Lance-lhe coentros em abundância e alho picadinho. Já frio, na travessa ou no prato, tempere a gosto com azeite virgem e vinagre de qualidade.
Pode integrar também a orelha, mas não aconselho pois esta é bem mais rija e para sua limpeza não bastam cotonetes.
Tertuliense Caló

domingo, 4 de julho de 2010

O Amaro, o Azeite, e o Nosso Senhor dos Aflitos


Ainda sobre Olhão, e da mesma fonte da carta do marítimo, segue esta história e foto:
"O Amaro era um marítimo que nos seus últimos anos ganhava a vida apanhando as "cascas" do choco que geralmente era desperdiçado por todos. Certo é que estas "cascas" depois de moídas eram comercializadas.
O Amaro era também muito religioso e todos os dias ia ao Senhor dos Aflitos (nas traseiras da Igreja Grande) rezar. O sacristão, que gostava de fazer partidas aos mais simples que, como o Amaro, lá iam rezar e pedir, resolveu um dia brincar com ele.
Assim, ficou à espera que ele lá chegasse e começasse com os seus pedidos íntimos ao Senhor.
Quando este terminou e voltou as costas para se ir embora, o sacristão escondido por trás do Senhor dos Aflitos, fazendo voz de alma-penada-do-outro-mundo diz:
- Vê lá se para a próxima trazes um litrinho de azeite!
Lembramos que na época a iluminação não era eléctrica e o azeite era usado para, em lamparinas próprias, iluminar os santos. Era por isso, frequente os fiéis fornecerem o azeite.
O Amaro voltou-se, espantado com a voz do outro mundo, e olhando para o Senhor dos Aflitos, respondeu:
- Entãããã? Nã me digas que também te ofereceram uma teca de peixe espada p'ra fritar!..."

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Uma proposta para o bem estar dos pinguços


Após uma longa jornada de luta, iniciada noutras paragens, que se desenrolou ao longo de toda a tarde e parte da noite, a fadiga apoderou-se-me das "gâmbias" e veio-me a ideia da imagem em anexo. Ao tertuliano engenheiro mecânico solicita-se o projecto técnico.
Convém ainda registar o excelente tapeamento de ontem, já que a acta ficou por elaborar, tamanha era a "lanzeira" provocada pelo bafo quente da noite.
Uma cabeça de suíno devidamente fragmentada, "esquisitissima" como dizem os espanhóis para designar o carácter refinado de uma iguaria (ficou-me o espanhol no subconsciente depois da derrota de Portugal, essa também esquisitíssima, mas de acordo com o significado do adjectivo em português). Uma estupeta de atum fresquíssima, como exigia a temperatura e uma saladinha de polvo mais uma vez bem trabalhada.
Cante alentejano durante a tarde e "music hall" à noite alegraram o espírito, tanto como o super branquinho.
Podia-se viver sem a Adega Amável? Podia-se, mas não era a mesma coisa!
Tertuliano Caló

domingo, 27 de junho de 2010

A carta do marítimo de Olhão


Tratando-se uma das peças mais emblemáticas da "fala" de Olhão, terra ímpar nas história e cultura algarvias, publica-se a famosa carta que, tal como a foto, foi retirada do blogue APOS, um excelente trabalho de António Paula Brito em prol da sua terra.

"Farcisca
À díase, do mar dâse Berlêngase, a sete bráçase e mêa d' água, embararem-se-m' âze grósêrase, cande vê de lá o mariola do tê pai e me dezeu assim :
- Ó hôm!!! tu ése um montanhêre, hôm! Tu fázez um grande salcrafice em virese ó mar !!!...
- Má o que é que você me dize, hôm?!
- Digue-te iste e nã casase ca 'nha filha !
Alha-me-ze Farcizeca ! ê cá ântese cria cu tê pai me dèsse doi ó trê estragaços da cara, q'êl me dessesse aquil que tá ali à vizete de gente!

Viémese pá terra e a companha do barque nã falava doutra coisa.
Nísete, vê de lá o mane Zé Xaveca e me dezeu assim:
-Mó, ó móce! Na te zánguese, ná t' arráleze, móce! Taze-te arralar?
- Atão nã m´ êde arralar?
- Nã te ralese rapá, se nã casáreze c'a filha dele casaze cá c'a minha hôm!


É p'a que vêisase, Farcizeca, quê cá inda tenhe pretendêntase. Tu pensase cú tê pai é o Prencêse D.Carlos? A tua mãi a Rainha D. Imélia e os tês ermãos os Enlefantesinhos ?
Alhamese ! ele é mai brute cá mãi dos penhêrese do mane João Luice.

Dêxa lá cuma viage quê face ó mar de Larache , ganhe o denhêre às braçadase. Compre um chapé de côque, uma vengala, botas de rengedêra com tapadôiraze, passe a barlavante da tu porta e arraste os peses cóm' um gal. Tu vêse-me e falase-me, mai ê cá veje-te e nã te fale.

Mai, sê cá sentir alguma coisa do mê côrpe, ai 'nha mãe!!! Digue logue que forem vocêiaze que me fizerem mal! Qu'ê cá nã quér que vócêiaze andem a falar mal de mim p'êssese tânquese e rebêrese!

Ê bem sê que tu tenz' uma linda máineca de quez'tura, mai ê cá na sei s'èze tan prefêta de mãoze come dizeze.

Na m'arrale! Cá só quer que tu t'allêmbreze dos mês doze brenhoisinhes (ponha lá iste da carta,mano Manel, qu'ela já m'entende).

Digue tiste e nã memporta com o pôrque do tê pai.
Perdoi a arção.

Embróise"

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Poesia amável


Com dedicatória especial ao meu amigo Afonso Dias, aqui vai um poema da Hélia Correia

Só assim será poema

Que o poema tenha carne
ossos vísceras destino
que seja pedra e alarme
ou mãos sujas de menino.

Que venha corpo e amante
e de amante seja irmão
que seja urgente e instante
como um instante de pão.

Só assim será poema
só assim será razaão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.

Que seja rua ou ternura
tempestade ou manhã clara
seja arado e aventura
fábrica terra e seara.

Que traga rugas e vinho
berços máquinas luar
que faça um barco de pinho
e deite as armas ao mar.

Só assim será poema
só assim será razão
só assim te vale a pena
passá-lo de mão em mão.


Hélia Correia é mais conhecida como ficcionista, mas que está incluida na Antologia Poesia 71, de Fiama Pais Brandão, lá isso está; que José Fanha a incluiu na sua Antologia Poética da Resistência, é verdade; que Mafalda Arnaut, Vitorino, Amélia Muje, Cristina Branco, Janita Salomé,José Jorge Letria e o GAC(Viva a Ronda da Alegria), entre outros a cantaram, é certo; que esteve quase a ganhar o prémio Camões pelo ecletismo da sua obra - ficção, poesia e teatro- também é verdade.

Do seu livro de poesia Pequena Morte/Esse Eterno Retorno - 1986

Contigo partilhei
os vários leitos dos amigos dispersos. Mesas, sumos,
os degraus mal ardidos do terror.
Contigo um pouco em cada aldeia, enquanto
nada de nós podia ultrapassar
as paredes dos outros que jaziam
no repouso ......

Que o Caló embeleze o post, que para isso não tenho arte.

Augusto Miranda

domingo, 20 de junho de 2010

José Saramago e o conflito com Deus



"Entre o homem, com a sua razão, e os animais, com o seu instinto, quem, afinal, estará mais bem dotado para o governo da vida? Se os cães tivessem inventado um deus, brigariam por diferenças de opinião quanto ao nome a dar-lhe, Perdigueiro fosse, ou Lobo-d'Alsácia? E, no caso de estarem de acordo quanto ao apelativo, andariam, gerações após gerações, a morder-se mutuamente por causa da forma das orelhas ou do tufado da cauda do seu canino deus?" (José Saramago - In Nomine Dei).

A existência de deus e do seu poder e veículos de comunicação com o homem, questão pertinente, sempre actual, e recorrente na vida e obra de José Saramago (leia-se José Saramago em abordagem directa, em, "Segunda Vida de Francisco de Assis"; "Evangelho segundo Jesus Cristo"; "In Nomine Dei"; "Caim").

As minhas homenagens a este grande e vertical pensador, escritor e homem.

Tertuliano Jorge Leiria